De nazista à ídolo do Man City: Bert Trautmann

Bert Trautmann – O nazista que virou ídolo do City

Um ex-cabo da Alemanha Nazista é contratado e vai jogar no seu time do coração quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Como você reagiria?

Esse fato ocorreu na vida real, mais precisamente na Inglaterra. Bert Trautmann, goleiro alemão que pertenceu ao exército hitlerista foi contratado pelo Manchester City em 1949 e é um dos maiores ídolos da história do clube inglês.

Antes de criar julgamentos prévios, no entanto, é importante esclarecer o contexto histórico em que Trautmann estava inserido para compreender as razões e motivações que o levaram a se inserir nesse meio; as mazelas e a obscuridade a qual não só o atleta, mas boa parte da população alemã vivenciava.

A Alemanha nas décadas de 1920 e 30

Após mais de quatro anos de combates na Primeira Guerra Mundial (1914-18) – um enorme desperdício bélico e que ceifou milhões de vidas – a Alemanha teve de assinar um acordo de paz, que ficou conhecido como Tratado de Versalhes. A assinatura desse tratado, no ano de 1919, gerou e fomentou uma enorme crise no país.

No mesmo ano, se constitui na Alemanha a chamada “República de Weimar”[1] – um novo sistema de governo com o objetivo de reconstruir o país que se encontrava em enorme crise no pós-guerra. A política desse período foi marcada pela total instabilidade. Nos 14 anos de sua existência, ela presenciou 21 diferentes governos. A crise econômica, social e política foi ainda mais agravada com a quebra da bolsa de valores em 1929 minou a confiança dos eleitores e fortaleceu o extremismo político.

Em 1932, o número oficial de desempregados passava dos 5 milhões de pessoas. No ano seguinte, Adolf Hitler foi nomeado chanceler do Reich pelo presidente Paul von Hindenburg, com a promessa de que seria “moderado”. No entanto, como sabemos, isso não ocorreu, e, pelo contrário, levaram ao Holocausto e à Segunda Guerra Mundial.

Sem fé na democracia, cansados com a velha política e com um “rosto novo” que oferecia uma falsa sensação de segurança e se comunicava de forma simples, conquistou a população alemã que o subestimou – acreditava-se que suas declarações eram feitas para chocar.

Trautmann – O jovem que se tornou oficial alemão

O futuro goleiro do Manchester City era uma criança quando o Hitler subiu ao poder, tinha apenas 9 anos em janeiro de 1933 – quando o ditador é nomeado chanceler. No entanto, por influência familiar, ao longo de sua adolescência, ansiava por ser membro da Juventude Hitlerista – movimento juvenil organizado pelos nazistas que passou de 100.000 membros em 1933 a 7,2 milhões em 1940 (82% da população jovem alemã)[2].

Quando completou 17 anos se ofereceu às forças armadas, com o desejo de ingressar na Luftwaffe – a força aérea alemã. Até concluiu o curso de paraquedista, no entanto foi designado ao trabalho de consertar veículos militares. Não atuou na linha de frente da guerra, mas chegou a ter confrontos com soviéticos, sendo promovido a cabo.

Trauttmann na juventude.

Próximo à rendição do III Reich no confronto, foi capturado e levado a um campo de prisioneiros na cidade de Norwich, na Inglaterra, no ano de 1944. Trautmann foi libertado após a Convenção de Genebra[3] ”que determinava que os prisioneiros de guerra devam ser soltos e repatriados sem demora após cessarem as hostilidades ativas”.

Uma nova vida

Apesar da Convenção de Genebra estabelecer que os prisioneiros de guerra poderiam voltar à seu país natal, Trautmann optou por continuar vivendo na Inglaterra começou a jogar no St Helens Town, onde se destacou na posição de goleiro.

Suas atuações chamaram a atenção do Manchester City, que procurava um goleiro para substituir Frank Swift, titular dos citizens e da seleção inglesa, que havia se aposentado na temporada de 1948-49.

No entanto, apesar de sua qualidade técnica, seu histórico pesava e a rejeição entre os torcedores da equipe da cidade portuária era enorme, haja visto que boa parte pertenciam a comunidade judaica, o que rendeu diversos protestos por sua contratação.

Sucesso em sua carreira no City

Se há alguém que poderia auxiliar o perdão dos ingleses ao ex-combatente alemão, essa pessoa seria um judeu. Dito e feito: o rabino da cidade de Manchester, Alexander Altmann pediu à comunidade judaica que não julgasse um alemão individualmente pelos atos cometidos durante a guerra.

A intervenção do rabino ajudou o goleiro, que se firmou na titularidade do City e foi deixando de ser hostilizado em seu estádio – entretanto, ainda sofria enorme rejeição dos torcedores de outras equipes.

Trautmann em atuação pelo Manchester City

Suas grandes atuações renderam ao goleiro o prêmio de Jogador do Ano na temporada de 1955/56, inédito até então para um arqueiro.

Um lance marcou sua carreira: na final da FA CUP contra o Birmingham em 1956. Faltando 17 minutos para o fim da decisão, ele se choca com um adversário e fica inconsciente no gramado. Porém, como o regulamento não previa substituição, se levanta e fica até o fim da partida, garantindo o título à sua equipe, em vitória por 3 a 1 sobre os blues.

Dias depois do término da partida, foi constatado por exames que o goleiro fraturou cinco vértebras do pescoço e por milagre não ocorreu algo mais grave. Como consequência, ficou fora de diversos jogos nas 2 temporadas seguintes.

Ao se recuperar, Trautmann continuou defendendo o Manchester City até 1964, atuando por 565 partidas pelo clube inglês. Após sua aposentadoria, tentou a sorte como treinador, mas não se destacou.

Faleceu aos 89 anos, em 13 de julho de 2013 após sofrer ataque cardíaco.

Virou Filme

No ano de 2018 o filme “The Keeper” foi lançado em homenagem a história do goleiro. A produção remonta desde seus dias no exército alemão até sua carreira no clube inglês. É dirigido por Marcus H. Rosenmüller e tem como ator principal David Kross.

[1] A cidade de Weimar recebeu uma assembleia constituinte aos seis dias do mês de fevereiro de 1919 para a elaboração de uma nova Carta Constitucional para o país. Venceu o projeto constitucional republicano parlamentarista, isto é, a Alemanha passou a ter duas casas legislativas no comando central. (Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/republica-weimar.htm)

[2] Dados retirados da “Enciclópedia do Holocausto” (disponível em: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/hitler-youth-2)

[3] As convenções de Genebra – disponível em: https://www.icrc.org/pt/doc/war-and-law/treaties-customary-law/geneva-conventions/overview-geneva-conventions.htm

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