Barcelona – O Símbolo Histórico Catalão

Matéria Publicada no antigo domínio do AlternaFut em  03/10/2017.
Por Rodolfo Silva
A Espanha está em crise política, o nacionalismo catalão em alta. O movimento separatista organizou um referendo para definir se a região da Catalunha se tornará independente da Espanha ou não. A definição dessa situação terá reflexos no futebol, e a maior preocupação é em que liga o time do Barcelona ira jogar, caso se confirme a separação.
No último domingo, 01/10 se iniciou a votação do referendo e o Barcelona enfrentou o Las Palmas com portões fechados para o público, tendo o jogo inclusive quase vir a ser cancelado.
Pensando nessa complexa situação e como estudante de história, resolvi buscar as raízes históricas do problema político para se compreender o atual momento. Através dessa busca, pretendo mostrar como a questão política impactou na instituição FC Barcelona no breve século XX, quando a Espanha passou por guerra civil e regimes autoritários.

(No Camp Nou. a frase “Més que un club” [Mais Que um Clube] – (Foto/Reprodução)
O Início do FC Barcelona.           
No final do século XIX e no início do XX o futebol começou a se popularizar na América do Sul e na Europa, fazendo com que várias entidades esportivas surgissem nesse período.  No princípio, o esporte ficou popular principalmente nas regiões portuárias, onde os marinheiros ingleses  locais aportavam e jogavam as partidas.
Barcelona era uma das cidades em que o esporte começou a ganhar fama no fim do século XIX, e o empresário suíço Hans Gamper decidiu fundar um clube na cidade catalã, dando origem em 1899 o Football Club Barcelona (Futbol Club Barcelona). Tendo passado por dificuldades financeiras desde seu inicio, o clube só conseguiu se estabilizar após se fixar no estádio Camp del Carrer de la Indústria. Tendo se recuperado financeiramente, o clube começou a ganhar campeonatos e mais torcedores, aumentando também o número de sócios, o que levou o clube em 1922 fundar um novo estádio, o Camp de Las Corts.
Um ano após a inauguração do Camp de Las Corts a instabilidade política na Espanha levou ao golpe militar de Miguel Primo de Rivera. Durante o governo de Rivera, o nacionalismo catalão esteve presente nos jogos do Barcelona e o regime respondeu com intervenção direta no clube. Porém, antes de entrar no assunto, vou fazer um breve histórico sobre o nacionalismo catalão.
A Guerra da Sucessão (1702-1714)
A Catalunha foi incorporada a península ibérica através do casamento entre famílias, durante séculos permaneceu com determinada autonomia, até a guerra da sucessão no século XVIII. Em 1701, Carlos II, rei da casa de Habsburgo falece sem deixar herdeiros. Apesar disso, em seu testamento, cedia o trono para Felipe V, que era neto de Luis XIV (Rei da França nesse período). A partir desse momento, se dá inicio um verdadeiro ‘Game Of Thrones’ da vida real. As grandes potências do período ficaram assustadas com a possibilidade de uma nova superpotência surgir com a união da coroa espanhola com a francesa, se uniram para apoiar o então imperador da Áustria, Leopoldo I, que havia se envolvido no conflito visando colocar seu filho, Carlos de Habsburgo no trono.
A Catalunha simpatizou com os austríacos, Carlos II foi proclamado Rei da Catalunha em 1705. Porém, em 1713, Carlos II e os outros países envolvidos no conflito, fazem um acordo com Felipe V e deixam a Catalunha sozinha no conflito. A Catalunha conseguiu resistir por mais 12 meses no conflito, porém, ao término do conflito, Felipe V aboliu todas as instituições catalãs além de fechar as universidades da Catalunha, através de um decreto que ficou conhecido como “Decreto de nova planta”.
Os nacionalistas da Catalunha defendem a ideia de que são explorados/oprimidos pelos espanhóis desde essa invasão que ocorreu em 1714, quando perderam vários de seus direitos. Os catalães possuem identidade cultural e língua própria, possuem também um sentimento de identidade nacional com a região catalã, e não com a espanhola. A sua economia, no último ano (2016) representava 19% do PIB espanhol, a frente até da capital Madrid que possuía 18,9%. Porém, apesar de ser a de maior concentração de riqueza, há um déficit orçamentário e ela entrega mais dinheiro ao governo do que recebe.
A reação do Barcelona a ditadura de Primo Riviera
Em meio a crise política espanhola, em 1923, um ano depois de o Barcelona fundar seu novo estádio, o Camp de Las Cort, o general Miguel Primo de Riviera aplica um golpe militar no país e toma o poder, iniciando um período de ditadura no país ibérico. Durante o regime, o FC Barcelona ficou marcado pelo nacionalista de sua torcida. No ano de 1925, o Barcelona marcou um jogo amistoso para homenagear o Orfeó Catalá, um coral catalão que promovia a cultura catalã.
“A primeira etapa do jogo transcorreu normalmente, mas durante o intervalo, uma banda inglesa, que havia sido convidada para o evento, tocou os hinos da Espanha e das Ilhas Britânicas. Quando a banda começou a tocar a Marcha Real Espanhola, os mais de 12 mil presentes no estádio começaram a vaiar. Em seguida, as vaias contra Marcha Real se converteram em aplausos quando a banda começou a tocar God save the King.” (FIGOLS, 2014)
General Primo de Rivera não ficou satisfeito com as vaias ao hino espanhol. (Foto/Reprodução)
A manifestação simbólica contra o hino espanhol gerou uma intervenção direta no clube catalão. O general da Catalunha, Joaquín Milans Del Bosch, solicitou a suspensão imediata das atividades do clube. Joan Gamper, presidente do clube catalão, defendeu as manifestações dos torcedores, como resultado teve decretada sua expulsão não apenas do Barcelona, mas também da Espanha.

O Estádio Camp de Las Cort ficou fechado por seis meses e só voltou a ser ativado em decorrência das várias manifestações dos torcedores e da influência política do novo presidente do clube, Arcadi Balaguer.

Na década seguinte se instaura uma guerra civil na Espanha, como consequência direta, um novo ditador assume o poder: Francisco Franco, que ficaria no poder de 1939 a 1976. Durante seu governo, o clube se tornou mais ativo politicamente, como será demonstrado no tópico seguinte.

A Ditadura de Francisco Franco (1939 a 1975)  
O governo Franquista visava dar o sentido de unificação a nação espanhola. Assim sendo proibiu manifestações linguísticas e culturais que não fossem castelhanas em locais públicos. Apesar da proibição de falar catalão no espaço público, essa restrição não se aplicava ao estádio, o que acabaria por tornar o futebol um grande espaço de manifestação cultural catalã, agregando as massas populares.
Franco interviu diretamente na equipe do Barcelona, fazendo com que ela mudasse de nome, se antes era Football Club Barcelona, agora passava a se chamar Club de Fútbol Barcelona e sofria alterações também em seu escudo.
Durante o Franquismo, alguns clubes espanhóis tiveram uma aproximação maior com o governo militar, como era o caso do Real Madrid. Em 1943, nas semifinais de uma competição espanhola, o Barcelona venceu o Real Madrid por 3 a 0 no jogo de ida. Na volta, a história foi outra: relatos dão conta de que o clube catalão recebeu visita de militares armados do governo no vestiário que os pressionaram a perder a partida. Como resultado dessa intervenção, o clube merengue venceu o Barcelona por 11 a 1.
Apesar de o Barcelona ter sido muito prejudicado pelo Franquismo durante seu regime, houve um caso excepcional em que o governo Franquista não agiu como uma sombra ao clube, mas sim como apoiador, é o caso da contratação da estrela Kubala.
Kubala, Di Stéfano, Barcelona e o Franquismo.
Na década de 40 o Barcelona foi ofuscado pelo Real Madrid e pelo Athletic Bilbao. Porém, nos anos 50, o Barcelona contratou o húngaro Kubala que, com seu futebol, ajudou a reerguer o clube, dentro e fora dos gramados. Kubala era conservador e refugiado de governo comunista da Hungria, passou por diversos países até chegar na Espanha, sendo peça fundamental para a criação do Camp Nou.
Kubala tinha problemas com álcool. Há uma lenda que diz qual foi a grande cartada do Barcelona para negociar com o atleta. Santiago Bernabéu, presidente do Real Madrid na época, queria contar com o húngaro no seu clube e havia marcado uma reunião com o atleta. Sabendo disso, Pep Samitier (estrela como jogador, e ex-treinador do Barcelona) levou Kubala aos bares de Madrid até deixa-lo inconsciente de tanto beber. Quando acordou, estava de ressaca e a caminho de Barcelona para fechar negócio com o clube catalão.
Se o Barcelona ficou com Kubala em 1950, três anos depois o Real Madrid deu o troco com o Di Stéfano. O argentino foi disputado pelos dois clubes, mas o Barcelona tinha levado a melhor nas negociações e contratado ele. Dí Stefano chegou a jogar alguns amistosos com a camisa do Barça, porém uma nova regra da liga espanhola restringia o número de estrangeiros no elenco. O Barcelona então cedeu Di Stéfano para o Real Madrid, e o argentino se tornou o maior jogador da história do clube da capital.
Kubala e Dí Stéfano. (Foto/Reprodução)
Apesar de ter o contrato assinado, ainda faltava resolver os trâmites legais para o húngaro jogar pelo clube catalão. Por ter sido um desertor de seu país, a Federação Húngara solicitou a FIFA a proibição do jogador de disputar competições profissionais.  E quase conseguiu, não fosse Muñoz Calero, presidente da Federação Espanhola e apoiador do regime franquista ter intervindo.
No fim das contas, a FIFA puniu apenas por um ano o jogador que pôde brilhar na década de 1950 no Barça.
O clube que melhor serviu aos interesses do governo Franquista foi o Real Madrid. Durante seu regime, as fantásticas conquistas do clube merengue estampavam as manchetes internacionais na década de 50. Porém, o caso de Kubala foi um caso excepcional em que o regime esteve ao lado do Barcelona, mesmo o clube sendo opositor ferrenho a suas políticas.
O governo de Franco se apoiou na ideia de que um jogador fugia de um regime comunista em busca da liberdade espanhola para propagandear os bens de suas políticas. Para o Franquismo, Kubala se tornou importante, chegando até a protagonizar filmes em propagandas anticomunistas.
Com a camisa do Barcelona, ganhou quatro vezes a Liga Espanhola e cinco vezes a Copa da Espanha. Na temporada de 1952, o clube faturou cinco títulos, ficando conhecido como “El Barça De las Cinco Copes”
Com o sucesso na década de 50, sua fama aumentou, e consequentemente sua torcida também. O Estádio Camp de Las Cort ficou pequeno para o Barcelona, que crescera muito. Por causa disso, em 1954, começou a construção do estádio Camp Nou, que foi inaugurado em 1957 com capacidade para receber até 80 mil pessoas por partida.
 Quanto a sua antiga casa, os catalães tiveram a ideia de vendê-la para pagar a nova que havia saído. No entanto, passou por alguns problemas e só pode concretizar a venda na década seguinte, quando governo Franco interviu e autorizou o clube a fazer a negociação.
“Nesse sentido, o clube valeu-se do regime franquista para sanar sua dívida, mas a ação de Franco pode ser vista como uma tentativa de aproximação com o clube, haja vista que o generalíssimo gostava de futebol e usava-o como propaganda de seu governo.” (FIGOLS, 2014)
Em 1968, Narcís de Carreras assume o clube, e em seu discurso profere a frase mais famosa ao se tratar do Barcelona: “El Barcelona es algo mas que um club”.  Espetacular frase reflete a dimensão política que o clube tomou, carregando consigo um sentimento catalão, um sentimento anti franquista.
Nos últimos anos do governo Franco, em 1974, o Barcelona mostrou por que era “més que un club”: venceram o Real Madrid em pleno estádio Santiago Bernabéu por 5 a 0 e ainda voltou a ser campeão da Liga Espanhola. Um ano após a goleada, o ditador vem a óbito em Madrid. Internado em um hospital, Franco enfrentava uma doença e não conseguiu se recuperar.
Tendo feito esse resgate da história do Barcelona no século XX e mostrado como a política influenciou ativamente no clube, pretendo mostrar como o jogo do último domingo repercutiu nas mídias catalãs.
A Catalunha no século XXI
Como demonstrado anteriormente, a Catalunha já possui em seu histórico um sentimento nacionalista e uma luta por maior autonomia. Em 2006 um estatuto foi aprovado, dando maior autonomia à região e definia a Catalunha como Nação.
Porém, em 2010, o Tribunal Constitucional da Espanha rejeitou esse estatuto anulando o status de nação da Catalunha, o que irritou os nacionalistas, que se engajaram cada vez mais na luta pela independência da região.
Os nacionalistas fizeram então, em 2014, uma consulta informal sobre a independência catalã e 80% dos participantes votaram a favor da independência.
Manifestantes lutam pela independência catalã. (Foto: Reuters/Albert Gea)
Em 2015 o parlamento da Catalunha ficou composto por maioria pró Independência.
Nesse ano de 2017, um referendo foi convocado e realizado mesmo sem o consentimento do Governo. Mais de 10 mil homens da polícia e da guarda civil espanhola foram enviados à Catalunha e reagiram com repressão, deixando mais de 800 feridos. O governo confiscou as urnas, mas os catalães permaneceram com força de vontade, votaram e lutaram.
O resultado do referendo foi de 90% pró independência.
01-10-17: Barcelona x Las Palmas – O Dia em que o Camp Nou ficou mudo
O jogo contra o Las Palmas pela 7ª rodada do campeonato espanhol estava marcado para o dia primeiro de outubro, domingo, às 11:30 a.m. (horário de Brasília).
O Barcelona lutou pelo adiamento da partida, porém, a federação negou o pedido e ameaçou com a perda de 6 pontos no campeonato. O clube não se opôs à federação e jogou a partida, mas fechou os portões do Camp Nou, ficando o estádio sem torcida. A imprensa catalã criticou essa decisão da diretoria do Barcelona.

Na capa do Sport, um jornal catalão: “Vergonha”.  (Foto: Reprodução/Sport)
Em sua coluna no Sport, Lluís Mascaró criticou a atitude do clube: “O Barcelona ganhou ontem um jogo, mas perdeu a dignidade. Deixou de ser, definitivamente, ‘mais que um clube’ para tornar-se um simples time de futebol.”.
Porém, não só os jornais catalães criticaram a decisão da equipe do Barcelona de jogar a partida, como também jornais da capital Madri, que deram menor destaque à vitória do clube da capital (O Real Madrid venceu o Espanyol por 2 a 0, também no domingo) e engrossaram as críticas contra o Barcelona.
O jornal Marca destacou em sua capa “A este Barça não há quem aplauda”. (foto/reprodução: Marca)
Em nota oficial, o Barcelona condenou as ações que ocorreram na Catalunha, e disseram que jogaram de portas fechadas para mostrar a dor pelos acontecimentos e não por problemas de segurança.
Referências Bibliográficas:
5 questões-chave para entender polêmico plebiscito ‘rebelde’ sobre a independência na Catalunha. BBC 25 de setembro de 2017
<Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/5-questoes-chave-para-entender-polemico-plebiscito-rebelde-sobre-a-independencia-na-catalunha.ghtml>
15 grandes histórias sobre Kubala, o craque com uma trajetória de vida singular – Leandro Stein. 13 de junho de 2017 <disponível em: http://trivela.uol.com.br/15-grandes-historias-sobre-kubala-o-craque-com-uma-trajetoria-de-vida-singular/>
80% votam por independência em consulta informal na Catalunha. BBC Brasil . 10 novembro 2014 <disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141110_catalunha_votacao_hb>
Barça deixou se ser ‘mais que um clube’ ao disputar jogo ‘mais triste de sua história’, detona jornal catalão – ESPN.com.br 02 de outubro de 2017.                 <disponível em: http://espn.uol.com.br/noticia/731859_barca-deixou-se-ser-mais-que-um-clube-ao-disputar-jogo-mais-triste-de-sua-historia-detona-jornal-catalao>
Catalunha tem referendo pela independência neste domingo; entenda o movimento separatista. G1 – 30 de setembro de 2017. <disponível em:               https://g1.globo.com/mundo/noticia/catalunha-tem-referendo-pela-independencia-neste-domingo-entenda-o-movimento-separatista.ghtml>
Imprensa catalã critica Barça por jogar e desistir de adiar partida: “Vergonha”  GloboEsporte.com 02 outubro de 2017 <disponível em                : https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-espanhol/noticia/imprensa-catala-critica-barca-por-jogar-e-desistir-de-adiar-partida-vergonha.ghtml>
Kubala, quando Franco decidiu salvar o Barcelona.  Futebol Magazine 21 de abril de 2016. <disponível em: http://www.futebolmagazine.com/kubala-quando-franco-decidiu-salvar-o-barcelona>
O Estádio Como Espaço de Afirmação do Nacionalismo Catalão. FIGOLS, Victor de Leonardo. Projeto História, São Paulo, n. 49, pp. 347-379, Abr. 2014 <disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/viewFile/19897/15946>
O FC Barcelona: més que un club – Victor de Leonardo Figols <disponível em: http://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-fc-barcelona-mes-que-un-club/>
Referendo sobre separação da Catalunha tem repressão e feridos por ação policial <Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/referendo-sobre-separacao-da-catalunha-tem-feridos-por-acao-policial.ghtml>

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